A GRINALDA DAS GLICINIAS
…
DOIS AMORES
A recordar sonhos e fulgores,
De dois amantes actores.
Aqui têm a grinalda, pórtico no DOIS AMORES,
Glicínias no auge certo do seu encanto,
Que admiro em encantamento tanto, tanto,
Que me transportam a momentos sonhadores!
Não resisto a ficar dia a dia sob este manto,
A exalar este odor; adoçar minhas dores,
Porque é a prenda certa dos nossos suores
A realçar a casa, sonho que adoramos santo!
Todos anos contemplo este belo cenário,
Porém é o fascínio obrigatório diário,
Que registo carinhosamente com ternura…
Chamo a Dolores; vem logo aos meus ensejos,
Que amantes nos abraçamos entre mil beijos,
Pra que as glicínias perfumam nossa ventura!
(2)
Estas glicínias têm mesmo cores relevantes,
Pra esta casa que foi feita por nós de raiz,
N’uma luta, só não falhou porque Deus não quis,
Um sonho destes só podia ter amores constantes!...
Por isto estas glicínias fazem muito, feliz,
É o tributo do trabalho digno d’emigrantes,
Ornam nosso sonho, meu Deus, como são galantes,
Ver, aspirar, este ramalhete que pra muito diz!
Mas tudo isto tem um reverso, que amargura
Vejo chegar o Inverno que atroz me procura,
Saúde e idade tentam serem amargos credores…
As glicínias continuam a florir talvez eternas,
Eu, murcho de saudade; vão faltando as pernas,
Vou deixar a grinalda onde beijo a DOLORES!
Nelson Fontes Carvalho

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