A ESTRADADA VIDA
( A agradecer e a responder ao
Mavioso poeta JORGE VICENTE)
(1)
AMIGO:
Grato pela risonha estrada que m’augura,
Mas sinto, pressinto, por todos lados escombros,
Nesta caminhada pesam em meus fracos ombros
Duas cruzes, doença, velhice que me tortura!
Disfarço e, com gana vou saltitando combros,
Aqui e acolá a estrada não pode ser segura…
E, junto da minha Dolores gozo tanta ventura,
Que agora a vida é só ter estes assombros!
Assim, minha estrada vai-se tornando…preta
Vejo, os milhares de poemas vão ficar na gaveta,
Sem luz, que os acarinhe com alguma meiguice!...
Fico triste, muito triste, penso nisto a fundo,
Dolores! DOIS AMORES! Que vou deixar o mundo,
São a apreensão por causa da estrada da velhice!
(2)
Ó a estrada da velhice! Tem hoje largos degraus,
Que nãos sei como os descer, vão ficando altos,
Na rotina diária, dou passos, já não dou saltos,
Duendes e medos, pra mim já são todos maus!
Neste martírio, quando surgem pequenos planaltos,
Faço por os contornar, porque em todos, vejo caos,
Se caio a queda pode ser de cento oitenta graus,
É triste, ao que cheguei cercado de sobressaltos!
Tal estrada está cheia de buracos curvas,
Até tem, aqui e ali poças com águas turbas,
Que vislumbro hora a hora em cada passada….
Talvez seja, porque sou um sentimental nato,
Amo a vida! A poesia, que à minha maneira trato,
Mas a velhice é sim inconcordável estrada!

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