ADEUS PRIMAVERA
Por estranho que isto pareça,
Como entendem, não sou maluco,
Nunca me passa pela cabeça,
Que a genica viril, arrefeça
Que me tomem por velho caduco!
Deixei de olhar para o espelho,
Com receio de certo desmaio,
Eu que à pouco era fedelho,
Vejo já vermes no aparelho,
Como o tempo passa, com raio!...
Blasfemo só todas as manhâs,
Com esse caso, é a minha celeuma,
Já estão aparecendo as cãs
Nem sei dos tais rasgos titãs,
Pois vejo-me tibío com reuma!
Nada a fazer., claro, são efeitos
Desta corrida nervosa, veloz
Que devemos seguir atreitos
Senão, não saímos já direitos,
É pior, acabar-mos por fim, sós!
Melhor é não atacar o dragão,
Que temos afoitos enfrentar,
Com todos temperos de acção,
Senão temos vida dura de cão,
Que a velhice nos pode doar!
Tempo seguro, ninguém trava,
Temos acompanhar tal corrida,
Senão cada um travesso, cava
A sua cova com tristeza clava,
Que os anos são hiante ferida!
Olho pra trás, vejo, distante
A primavera da doce mocidade,
Tudo passou, já num instante,
Que agora daqui pra diante,
Digo:- que saudade! Que saudade!
Lentamente cai dentro de mim,
Uma onda de tédio que revolta,
Porque tive uma vida jardim,
A mocidade que via não ter fim,
Passou, ligeira, e, jamais volta!

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