EU E TU
(À DOLORES por tantos favores)
Eu era o peregrino extenuado
Procurando uma sombra no deserto,
Cheio de sangue e pó, rosto sulcado
Pelo pranto de dor, o olhar incerto;
Tu foste meu amparo: no teu seio
Pendi a fronte— prosternado, exangue,
Com tuas mãos de neve, n’um anseio,
Enxuguei minhas lágrimas de sangue,
Eu era a flor pendida no valado,
Exposta aos temporais que traz o Inverno,
Sem ter da brisa um beijo perfumado,
Sem ver da primavera o sol galerno:
Tu foste o sol, e deste-me n’um raio
O vigor que nos gelos eu perdera,
De languidez de amores n’um desmaio,
Me desvendaste o céu da primavera.
Eu era, em pranto, o nauta bracejando,
Em mar cheio de escolhos, semimorto,
Entre as trevas da noite procurando
--nos ermos do infinito— um astro, um porto:
Tu foste a luz d’aurora da bonança,
Rasgando as densas nuvens da procela,
No meio da descrença— uma esperança.
No meio dos negrumes— uma estrela

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