ULTIMO PEDIDO
(Aos amigos da aldeia)
Amigos quando eu morrer,
Aqui têm o meu querer!...
Eu quero no meu caixão,
Seja em tudo o mais modesto,
Pra quê luxo, se vou pró chão,
Eu, jamais pra nada presto!
E, pra quem tantas flor,
Eu não quero nem uma só;
É sim homenagem à dor;
É sim homenagem ao pó!
Nem quero mesmo velas,
Que pra mim nada servem…
Iluminam, quem? Balelas
Deixem-se d’isso, conservem,
Do Nelson as coisas belas!
Conto com beijos e carícias,
Da minha querida Dolores,
Coitada! Isto são sevicias,
Após anos e anos d’amores!
E, os amigos cá d’aldeia,
Que aqui estão nesta “cega”
Ide sim pra uma boa ceia,
Há pr’aí uma boa adega!
Bebam duas garrafas do bom
Lá dos confins do Alentejo,
Nada de tristezas sem tom,
Serei já esquecido, prevejo!
Quero na minha mortalha,
O fato mais velho lá da mala,
Pra que não haja batalha,
Entre os vermes nesta gala!
Hoje neste triste oficio,
Já sabem o melhor que há,
É não fazer sacrifício,
Pois todos vêm pra cá!
Todos após o meu enterro,
A ordem, amigos, é esta:
Comam e bebam, é, um erro
Hoje não se fazer festa!
Que adianta esse pranto,
Vou. Deus deu-me castigo,
A todos vós, aqui garanto,
Breve, no Céu estão comigo!
Digo-vos adeus, com magoa,
Por tomar este caminho,
Ide, amigos, não bebam água,
Deixo pra vós um bom vinho!

Do Melhor
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